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sexta-feira, 11 de março de 2011

Sabiá - Chico Buarque

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Chico Buarque – Sabiá

Sabiá (Tom Jobim/Chico Buarque), 1968.

A música foi composta pelo Tom, intitulada, a princípio, Gávea. Recebeu, em seguida, uma maravilhosa letra de Chico, a qual dialoga perfeitamente com a música. Tamanha a qualidade que a canção foi vencedora da fase nacional do III Festival Internacional da Canção.

Sabiá
Chico Buarque/Tom Jobim

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

De início, já percebemos uma menção à Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, por causa da referência ao sabiá e à palmeira. No original, se diz, “Minha terra tem palmeiras / Onde canta o sabiá”. Aqui, entretanto, temos uma construção não só nostálgica, como melancólica.

Primeiramente, a música oscila entre muitas tonalidades. Segundo Lorenzo Mammì, Sabiá é uma “canção sem tonalidade definida, que acaba num lugar diferente daquele de onde começa”¹. A falta de uma referência tonal confere a ausência de um ponto fixo, de uma possibilidade de um encontro, tal qual sugerido pela letra. Se a música começa num ponto e termina em outro, é porque não houve volta, como a letra insistentemente pede.

A canção inicia-se com “Vou voltar / Sei que ainda vou voltar”, estribilho que se repete obsessivamente, reforçando a idéia de uma volta impossível. Note que a cada vez que esses versos são pronunciados, eles parecem mais distantes, devido à harmonia.

A letra segue com “Para o meu lugar / Foi lá e é ainda lá / Que eu hei de ouvir cantar / Uma sabiá / Cantar uma sabiá”. Apenas no “meu lugar” é que se escutou o canto do tal pássaro, e é ainda lá que se vai escutar. Essa repetição revela, no fundo, um sentido vazio para essa relação. Ao longo da música, essa volta não se consolida e parece cada vez mais certo que esse desejo será frustrado.

Na segunda estrofe, de maior complexidade harmônico-melódica, fica evidenciada a impossibilidade de retorno quando os seguintes versos explicitam: “Vou deitar à sombra / De uma palmeira / Que já não há / Colher a flor / Que já não dá”. Há um desencontro temporal: como se deita à sombra de uma árvore que já não existe? Fica evidenciada a ilusão do eu - lírico, o contraste entre o que se almeja e o que se tem de fato.

Na parte mais tensa da música, elevando a melodia à sua nota mais aguda: “E algum amor / Talvez possa espantar / As noites que eu não queria / E anuncia o dia”. Essas noites indesejadas evidentemente são as noites do exílio, as noites em algum lugar desconhecido, distante da sua terra, que contém as tais palmeiras e sabiás. Esse sentimento é expresso em detalhes na última estrofe:

“Não vai ser em vão / Que fiz tantos planos / De me enganar / Como fiz enganos / De me encontrar / Como fiz estradas / De me perder / Fiz de tudo e nada / De te esquecer” esmiúçam o vazio das noites. Sobre uma harmonia repetida e cíclica, as vozes tratam de, em sobreposição, cantar essa letra que não chega a lugar nenhum. São feitos planos inúteis, são feitas estradas para se perder, enganos, enfim.

Há também a ambiguidade dos dois últimos versos. Dizer “tudo e nada” pode realçar a idéia de ter-se de tentado o possível e impossível. No entanto, por conta da preposição “de”, no verso seguinte, pode-se entender que se fez de tudo, mas nada de te esquecer, isto é, não adiantou nada.

O resultado dessa canção é um vazio que permeia todos os versos. Dotado de uma tristeza ímpar na música brasileira, a canção não se refere unicamente ao exílio em si. Enquadra-se bem no quadro dos exilados que passariam a ser mais freqüentes a partir do ano que canção foi composta (1968), mas trata-se, no fim das contas, de uma alienação, segundo a análise já citada de Lorenzo Mammì.

A letra mostra a ilusão de se querer o novo e se manter o velho. Mostra que, quando se toma um caminho, nem sempre se consegue voltar. Mammì ousa dizer que Sabiá, junto com outras duas canções de parceria entre Tom e Chico (Pois é e Retrato em Branco e Preto), liquida a bossa nova e a sua época, pois rompe com a idéia de um desenvolvimento econômico, coerente com a idéia da ditadura militar vigente, conciliando com o clima praiano bossa-novista. O peso desse distanciamento, dessa nostalgia, poderia ter sido o cimento para essa bela canção.

¹ Parte dessa interpretação foi inspirada na análise de Lorenzo Mammì, intitulada “Canção do Exílio”, publicada no livro “Três canções de Tom Jobim”, CosacNaify, 2004.

26 / setembro / 2010 por Adriano Senkevics-

letrasdespidas.wordpress.com

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